Capítulo 3
Primeiramente, peço desculpas pela demora na publicação do terceiro capítulo. Uma série de pequenos problemas acarretaram num atraso de uma semana. Tudo resolvido, a história continua...vejamos para que direção ela aponta dessa vez...espero que gostem e que a empolgação não tenha acabado.
Renata Cunha
Capítulo 3
A alguns quilômetros dali, Ana Beatriz esperava ansiosamente por alguém na porta do cursinho. Seu nome era Tomás de Aquino Silveira Júnior, ou simplesmente Totti Jr. O garoto, de 19 anos, estudava no mesmo curso dela, quer dizer, estava matriculado lá, o que não significava que necessariamente freqüentasse alguma aula. Júnior tinha um modo arrogante de ser, desprezava tudo o que lhe parecesse pobre, inútil e certinho demais. Todas as vontades lhe eram atendidas, nunca soubera o real significado da palavra “sacrifício”, nem tivera interesse algum pelos estudos. O vestibular era uma boa desculpa para mostrar ao pai, o publicitário Totti Silveira, quais as suas “perspectivas de futuro”. Na realidade, isso se traduzia em mais tempo para as coisas que realmente eram “importantes” para ele: noitadas regadas a muita bebida e ecstasy, praia e academia.
O casal estava junto há algumas semanas, mas parecia se conhecer desde sempre, tamanha a afinidade entre eles. Quando viu a moto do rapaz dobrar a esquina, um tremendo sorriso se abriu no rosto de Bia. Raro vê-la sorrir assim, mas quando se tratava de Totti Jr, a história era diferente. Estava muito apaixonada e faria qualquer coisa para que ficassem juntos. Entre os beijos, ele sussurrou no ouvido dela:
- E então, vambora?
Nem foi preciso resposta. Bia o puxou pela mão, subindo na garupa da moto e enlaçando os braços pela cintura dele. Como já era costumeiro, sairiam dali pra qualquer outro lugar que fosse mais interessante.
***
O choque tomou o lugar do desespero. Renato simplesmente não sabia o que fazer. Foi andando quase como um zumbi até a sua sala. As palavras de D. Elisa, sua secretária, pareciam de uma língua desconhecida, ininteligível, e ele simplesmente ignorou o que ela dizia. Fechou a porta, sentou-se na poltrona e chorou. Chorou como há muito tempo não fazia, num soluçar constante. Todos os momentos junto ao Lúcio passavam como um filme pela sua cabeça e ele se entregou àqueles devaneios apenas por alguns instantes. Logo os outros sócios da agência, Marcelo e Bruno, que acabavam de chegar de um congresso de publicitários noutra cidade, invadiram o gabinete e correram para abraçar Renato. E choraram ainda mais.
Depois daquela comoção geral, Bruno, o mais racional e ponderado, respirou profundamente, enxugou os olhos e falou:
- É gente, acho que somos nós quem deve tomar as providências agora. A Marisa não vai ter a menor cabeça pra isso... aliás, ela nem sabe de nada. Vamos mandar um boy até a casa deles, porque avisá-la da morte do marido pelo telefone é imperdoável.
- É... – Renato balbuciou – chama então a Elisa aqui e pede pra ela fazer os contatos. A Marisa é fundamental, mas também temos que ligar pra funerária, avisar aos mais chegados, comunicar à imprensa, essas coisas.
- Também é bom anunciar o fim do expediente de hoje, vamos deixar a polícia trabalhar direito, sem a presença de todos esses funcionários por aqui – Marcelo lembrou.
- Então, Marcelo, acho bom irmos pras nossas salas, esfriarmos a cabeças, e aí sim, vermos tudo o que for necessário. Quando a polícia terminar, a gente sai da agência – Bruno concluiu.
Renato aproveitou a saída dos sócios para telefonar. Do outro lado da linha, Lídia atendeu ao telefone sem vontade. Detestava ser interrompida enquanto lia o seu jornal, principalmente quando se inteirava das novidades sobre a morte de Marcos Motta. As últimas notícias divulgavam o laudo da perícia, dizendo que foram encontradas altas doses de entorpecentes no corpo do jovem, evidência que poderia confirmar de vez a hipótese de suicídio. Renato, choroso, diz à esposa:
- Acabou, nada de bodas. Cancela tudo.
- Você enlouqueceu, né, Renato? Como é que eu vou cancelar? Os convites foram todos enviados, já acertei com o florista como vai ser a decoração, os músicos também já tão marcados...
- Cala a boca e me ouve! Esquece essas bobagens! – Renato berrou – Você não tá entendendo, já não tem mais razão pra festa, o Lúcio tá morto!
- O quê? Você só pode tá brincando! Ele jantou com a gente ontem...
- Eu nunca ia brincar com uma coisa dessas! Isso foi hoje, agora de manhã...
- Meu Deus, que coisa triste – Lídia repetiu, como sempre fazia quando achava algo triste – Mas o que aconteceu?
- Ninguém sabe ainda, a polícia tá lá, na sala dele, mas não deixa ninguém entrar.
- Renato, se acalma, por favor. Tudo bem que o momento não é pra festas, mas cancelar...Você não acha que seria algo muito radical? Será que a gente não pode adiar até que as coisas se resolvam?
- O quê??? Em que planeta você vive? Que saco, será que não dá pra perceber que se trata do meu melhor amigo, morto, aqui no escritório??? Você é doente... Ah, quer saber? Faz o que você achar que deve, mas olha só, nem adianta tentar me incluir nesse circo, tô fora!
***
Depois de horas de plantão noturno, Jesus ainda tinha fôlego para subir a rua apressado. Precisava chegar logo em casa pra saber se a caixa permanecia segura. Estava mantida há cinco dias sob seu poder e sempre existiria o risco de algum vizinho intrometido desconfiar de alguma coisa e tentar encontrá-la.
...Talvez fosse uma grande paranóia dele... puxa, quem imaginaria que um dos seguranças do Teatro Encena iria retirar uma evidência do local do suicídio, ou do crime. Pelo que ele sabia, as investigações ainda não levavam a nenhuma conclusão. Por isso, era mais indicado que a caixa continuasse ali.
Jesus mal havia pegado a toalha pra tomar uma chuveirada quando bateram à porta: era um representante da 56ª D.P., convocando-o para depor sobre o caso Marcos Motta.
- Eu não sei de nada disso, não, moço – Jesus desconversou.
- Isso quem vai dizer é o delegado. E você tem é que comparecer, se não, usam escolta policial. É bom assinar, tô falando.
Contrariado, o segurança pôs uns garranchos no papel e acompanhou o homem com o olhar, até ele descer ao longe.
- E agora, o quer é que eu faço agora! – Jesus pensou alto – será que alguém deu falta dessa caixa e agora vão me prender? Mas que merda, a corda sempre arrebenta do lado mais fraco! Não tenho como fugir, e tava lá quando aconteceu. Bom, o jeito é ir nesse tal depoimento, se eles ainda não souberem, passo por inocente em tudo... É, é melhor depor mesmo...
***
Assim que parte dos serviços terminaram no escritório, já era noite. O corpo já havia sido levado para o Instituto Médico Legal e os policiais permitiram que Renato, Bruno e Marcelo observassem pela porta. Quando se aproximaram, ainda sob o impacto do terrível acontecimento, o que se viu naquele gabinete foi uma bagunça generalizada que, comparada ao escritório de Renato, o fazia parecer um exemplo de organização. Antes decorado com objetos modernos e sempre em ordem, o ambiente agora misturava papéis e canetas, espalhados por toda a parte, a base do telefone arrancada da linha, o celular de Lúcio quebrado, o monitor do computador no chão, enfim, um verdadeiro vendaval naquele lugar. Ainda perto da entrada, uma silhueta branca ornava sombriamente o chão da sala. Renato começou a se sentir mal e os publicitários logo saíram dali, sem nem imaginar que, alguns instantes atrás, em meio àquela confusão, estava o suposto presente de bodas direcionado ao melhor amigo de Lúcio.

